Entrevista
com Chespirito:
Por Marcelo Jelen(Uruguai) tradução: BrunoSamppa
Como
se dá com sua estatura?
Quando
era menino, minha baixa estatura me deu um complexo que fez com que eu fosse
briguento.Eu deveria colocar fé de que não era inferior aos altos, e brigava
constantemente com eles.Brigava tantas vezes, que inclusive competi Boxe na
escola preparatória, e até nos “Guantes de Oro”.Depois, paradoxalmente,
minha pequena estatura foi uma ferramenta que me permitiu caracterizar o
Chapolin e o Chaves.E agora detesto o Boxe, o qual considero que não deveria
sobreviver ao Circo Romano.
Você leva dezenas de anos casado com Florinda Meza, e mais, trabalhando com ela.Qual é o segredo da convivência?
Não
há segredo na convivência com Florinda.Jamais nos aborrecemos.E mais: nos
admiramos e fazemos notório esse
Sua
esposa também é atriz, escritora, produtora e diretora de TV. Há
competitividade entre vocês?
Nenhuma.Ela
escreve novelas, algo com que não me dou.Encanta-lhe produzir (e o faz
maravilhosamente bem).Eu me canso com a produção.E ao menos competimos como
atores, já que estamos convencidos de que a competitividade nesta área é um
invento mercantil, pois é absurdo que compita, por exemplo, Clark Gable por "E
o
Porque
estudou engenharia?Serviram-lhe para algo esses estudos?
Porque
aos 17 anos ninguém pode estar seguro de sua vocação.Eu gostava de matemática
(e ainda gosto), e pensei que pó aí estava o caminho. De toda maneira, os
estudos têm sido muito útil em minha carreira, pois além de aplicar os
conhecimentos de perspectiva de óptica,geometria descritiva,hidráulica e muito
mais,o traço de uma trama dramática se dá muito melhor e mais facilmente
quando se pensa ordenadamente,como exige a disciplina matemática.É claro que não
me arrepende de ter estudado aquilo.
Qualquer
que leia seu currículo pode sofrer um ataque de vértigo.Tem tempo livre entre
escrever, atuar, dirigir e produzir?Como fazia quando seus seis filhos eram
crianças?
Sim
me sobra tempo.E eu o ocupo lendo, jogando dominó e vendo partidas de futebol
pela televisão e viajando.Sempre busquei ter tempo para compartilhar com meus
filhos.E o sigo fazendo agora que já estão todos casados, com o agregado
natural que representam os netos.
Tem
algum vício?
Fumei
durante 40 anos, dos quais eu me arrependo totalmente.(e já levo cinco anos sem
fumar).E bebo socialmente: meu aperitivo é uma taçinha de tequila.E tenho a
sorte de não cair nas garras do vício, com exceção do tabaco.
Por
fim, atuar...
{Para
muitos mil seguidores de seus personagens seria impossível imaginar Chespirito
fora das telas. Porém o certo é que a vocação pela atuação lhe despertou
tarde, e por casualidade. O resto é história conhecida: nos anos 70, Chaves e
Chapolin o fez conhecido em toda América Latina e seus programas foram dublados
para muitos idiomas. Ainda na última década do século XX, até Homer, o pai
dos Simpsons, chegou a incluir o Chapolin entre seus personagens favoritos, e
este senhor sabe bastante de televisão}.
Você
começou a escrever roteiros para que outros atuassem.As câmeras o estiveram
esperando por 20 anos...Imaginava-se ator então?
Não.Eu
pensava que durante toda a minha vida não seria outra coisa além de escritor.
Quando
o “chamou” a atuação?
Quando
tive que tomar o lugar de um ator que não compareceu, nos tempos que os
programas se transmitiam ao vivo.
Imaginava
que seus personagens alcançariam tal repercussão?
Não,
não imaginava que meus personagens chegassem a ter a repercussão que
tiveram.Comecei a dar conta disso quando fui contratado para fazer apresentações
fora do México, pois em todos os países fui objeto de recepções com multidões
e distinções que superavam por completo qualquer prognóstico.
Imaginou,
ao criar-los, que o Chaves e o Chapolin se converteriam em referencias
universais?
Não
podia imaginar que o Chapolin e o Chaves se converteriam no que se converteram.
Pagou
algum preço pela fama?
Tenho
pagado o preço lógico: um desgaste na intimidade, na liberdade dos movimentos,
etc, e a inevitável tarefa
É
verdade que o Chapolin Colorado apareceu em Os Simpsons?Como foi?
Homer,
o protagonista dos Simpsons, disse que uns dos seus personagens favoritos era o
Chapolin, Aí o chamam “Chespirito”, “Mexican Bee Guy” ou coisas
semelhantes.
O
que acha das dublagens de seus programas em outros idiomas?Como se sentiu ao
“escutar-lhe” com outra voz?
Sinto-me
orgulhoso de que meus programas foram dublados.Não me lembro em quantos e quais
idiomas, porém sim, sei que o primeiro foi o português, no Brasil.Senti admiração
ao escutá-lo, pois escolheram vozes incrivelmente parecidas com a minha e de
meus companheiros.
Os
atores de seus programas se divertiam no estúdio tanto como parece?
Sim,
os atores de meus programas se divertiam muitíssimo.
Voltará
a reunir esse elenco?
Não.Faleceram
Rámon Valdéz, Raúl Padilla y Angelines Fernandes.Agora seguiremos com o
“Chaves de 2000”...Porém essa vizinhança não voltará a reunir-se.
Culto
e popular
{Alguns
dos comentários que despertou a presença de Chespirito no Congresso da Língua
Espanhola em Zacatecas, aos que assistiram em 1997 personalidades que associam
com mais facilidade ao “culto”, é um exemplo de miopia frente aos artistas
populares. “Gabriel García Márquez, é um caso insólito, se pôs de pé em
seu lugar na mesa de honra e, dando a espalda ao presidente (Ernesto Zedillo),
falou por largo tempo, mais insólito ainda, com o polular e nada intelectual
Roberto Gómez Bolaños,autor de Chaves,o Doutor Chapatin,A Chiquinha,e demais
personagens de historieta”,observou então, desde de o diário “El
Universal”,um jornalista que confundia artes e hierarquias.}
Existe
uma arte “culta” contraposto a uma arte “popular”?
Não.A
arte popular pode ser tão culta como a que mais.E, o que é menos freqüente,
porém igualmente possível, a chamada arte culta pode ser popular.
Classificaram-lhe
de pessoa “nada intelectual”.Não lhe parece contraditório?
Não
sei se me pode considerar como intelectual.E nem quis que me considerasse
assim.A propósito, quando fui convidado ao Congresso da Língua Espanhola em
Zacatecas, cujos convidados havia nada menos que três prêmios Nobel
(Camilo
José Cela, Gabriel García Márquez e Octavio Paz), não faltou, claro, o
jornalista que escrevia: “Quem pode sair de um congresso sobre a língua
espanhola que tenha entre os seus convidados Chespirito?”.Pois
bem, eu o contestei (e minha resposta foi publicada no mesmo jornal) eu queria
que isso servisse para orientar os jornalistas como o autor do artigo, para que
aprendessem a escrever corretamente, evitando erros como...e transcrevi-os o que
tinha nesse artigo.(Igualmente, devo reconhecer que o jornalista em questão,
Victor Roura, respondeu da maneira mais elegante: “Foi sem querer
querendo”, ele disse).
Como
lhe parece que o vêem os intelectuais de seu país e América Latina?
Alguns
intelectuais do meu país me vêem como “intruso”.Outros, como um
“estranho”.Outros como um exemplo (porque os comparam e saem
perdendo).Finalmente, alguns poucos me consideram “ameno”.Os demais da América
Latina...não sei.
Escreve
a mão, a máquina ou no computador?
Tenho
escrito a mão, a máquina (mecânica, elétrica e eletrônica) e no
computador.Creio que vou me adaptando a informática.
A
televisão pode fazer algo mais que entreter?Faz, fez, algo mais que entreter?
A
Televisão pode fazer (e faz) muito mias que entreter: irrita, incomoda,
assusta, ensina um pouquinho, informa, desinforma, etc, etc, etc...
Sua
esposa declarou que agora a Televisa produz “puras porcarias”.Que você
opina?
Florinda
foi mal interpretada, pois ela não
disse que Televisa produz “puras” porcarias; ela disse que produz
“muitas” porcarias.E eu estou de acordo com ela, porém sem aplicar a afirmação
a Televisa, mas sim a televisão em geral.
A
tela e o poder
Nunca
foi candidato a nada, o pediram que fosse?
Uma
vez me pediram que fosse candidato a cargos públicos, porém nunca aceitei.
O
que acha dos políticos?
Faz
muitos anos que disse:
A política é tão feia, que se uma palavra tão bela como “mãe” se
“acrescenta” política, vira “sogra”!Mas
creio que os políticos são um mal necessário.
O
espectro político mexicano parece ir se dividindo em terços(o PRI,o
conservador PAN, eo centroesquerdista PRD).Parece-lhe um processo positivo?
A
história (a pobrezinha) é inocente.Eu juro! Se a história justificasse alguma
guerrilha, o mundo teria que ser guerrilha contra alguém ou contra algo.A história
deve servir para evitar os erros; nunca para alimentar desejos de revanche.E por
certo, a atividade guerrilheira de Chiapas e Guerrero é muito menor do que se
comenta no estrangeiro.
O menino Roberto
Você
era um menino fantasioso?
Eu
fui um menino fantasioso e muito tímido.
Foi
bom estudante?
Fui
um estudante regular
Você
procede de uma família de classe média e seu pai era um artista
reconhecido.Foi difícil preparar um ambiente como a vila do Chaves?
Não
foi difícil desenhar um ambiente humilde como a vila do Chaves,porque tive
amigos de todas as classes sociais.
Chaves
promove a emoção os que o vê.Você se emocionava ao escrever os roteiros e ao
encarná-lo?
Sim:
me emocionava ao escrever os roteiros e ao encarnar o Chaves.
Crê
haver sido de ajuda para os meninos e aqueles que não tem se quer uma vizinhança
que os acuda?
Não
sei.Mas espero que sim.
Alguns
podem dizer que a vizinhança do Chaves oferece uma óptica compassiva
,reivindicativa e enaltecedora dos desamparados e afirmam que seu criador é da
“esquerda”.Outros, que Chespirito é da “direita” porque pinta uma
vizinhança petrificada, sem mobilidade social, conformista.O que tem a dizer?
A
explicação dos términos esquerda e direita como qualificados me faz cada vez
mais vaga e confusa.Eu só sei dizer que meus programas não tinham tendência
intencionalmente direcionada e que, de qualquer maneira, há coisas que um quis
remover e outras quiseram conservar.
Em
uma ocasião, Quino disse que Mafalda tinha sido uma a mais entre as dezenas de
mil desaparecidos da Argentina.O Chaves nasceu em 1971 com oitos anos de
idade.Agora, teria 35 anos.O que seria ele?
Admiro
profundamente Quino e sua deliciosa Mafalda.Porém o Chaves era outra classe de
menino.E não sei que seria aos 35 anos.Só posso assegurar que, se fosse
argentino, talvez não seria uns dos desaparecidos.Porém muito menos
seria uma dos “desaparecedores”
Anteninhas
de Vinil
{Os
capítulos velhos de seus programas televisivos ainda sempre transmitido em
muitos paises, entre eles Uruguai (de segunda a sábado no Canal 10).Assim, várias
gerações de uruguaios souberam o que é uma “torta de jámon” (sanduíche
de presunto), aprenderam outro significado para a palavra “coragem” e
memorizaram frases como “foi sem querer querendo”, “me escapuliu”, “não
contavam com a minha astúcia”, etc etc.}
Uma
coisa que caracteriza cada criança da vila é sua maneira de chorar.Como você
chora?
Choro
de maneira muito diferente do Chaves.Mais interior que exterior.
Raramente
me enfureço na vida real, porém quando acontece dá medo a mim mesmo.Talvez é
esta a razão por qual, subconscientemente, evito fazer o mesmo nos programas.
Quando
você tinha 10 anos surgiam os primeiros heróis da história dos que ainda
persistem, como Super-Homem e Batmam.Tinha algum favorito?
Jamais
tive um favorito do tipo Super-homem ou Batmam.Sempre ma pareceram absurdo os
pseudo-heróis que ignoravam o que é o medo.
Sabia
que no Uruguai “chavo” (menino) de diz “botija”?
Não
sabia.No México se diz “botija” (ou botijón) aos gordos.
Por
último, esta incógnita angustia várias
gerações de uruguaios.O que o Doutor Chapatin leva em seu saco?
O Doutor Chapatin tem se negado sempre a me dizer o que leva em seu saquinho