Entrevista com Chespirito:

Por Marcelo Jelen(Uruguai)               tradução: BrunoSamppa

Como se dá com sua estatura?

Quando era menino, minha baixa estatura me deu um complexo que fez com que eu fosse briguento.Eu deveria colocar fé de que não era inferior aos altos, e brigava constantemente com eles.Brigava tantas vezes, que inclusive competi Boxe na escola preparatória, e até nos “Guantes de Oro”.Depois, paradoxalmente, minha pequena estatura foi uma ferramenta que me permitiu caracterizar o Chapolin e o Chaves.E agora detesto o Boxe, o qual considero que não deveria sobreviver ao Circo Romano.

Você leva dezenas de anos casado com Florinda Meza, e mais, trabalhando com ela.Qual é o segredo da convivência?

Não há segredo na convivência com Florinda.Jamais nos aborrecemos.E mais: nos admiramos e fazemos notório esse sentimento.Por outro lado, não passa um só dia que não digamos um ao outro: “Te amo”.

Sua esposa também é atriz, escritora, produtora e diretora de TV. Há competitividade entre vocês?

Nenhuma.Ela escreve novelas, algo com que não me dou.Encanta-lhe produzir (e o faz maravilhosamente bem).Eu me canso com a produção.E ao menos competimos como atores, já que estamos convencidos de que a competitividade nesta área é um invento mercantil, pois é absurdo que compita, por exemplo, Clark Gable por "E o Vento Levou” com Cantinflas por "Ahí está el detalle".

  {Os grandes pintores do Renascimento eram também, arquitetos. Miguel Angel também se destacou como poeta, e Leonardo, como um adiantado em tecnologia. Roberto Gómez Bolaños escreve para televisão, teatro e cinema, dirige, produz, atua... e é engenheiro, porém nunca exerceu}.

Porque estudou engenharia?Serviram-lhe para algo esses estudos?

Porque aos 17 anos ninguém pode estar seguro de sua vocação.Eu gostava de matemática (e ainda gosto), e pensei que pó aí estava o caminho. De toda maneira, os estudos têm sido muito útil em minha carreira, pois além de aplicar os conhecimentos de perspectiva de óptica,geometria descritiva,hidráulica e muito mais,o traço de uma trama dramática se dá muito melhor e mais facilmente quando se pensa ordenadamente,como exige a disciplina matemática.É claro que não me arrepende de ter estudado aquilo.

Qualquer que leia seu currículo pode sofrer um ataque de vértigo.Tem tempo livre entre escrever, atuar, dirigir e produzir?Como fazia quando seus seis filhos eram crianças?

Sim me sobra tempo.E eu o ocupo lendo, jogando dominó e vendo partidas de futebol pela televisão e viajando.Sempre busquei ter tempo para compartilhar com meus filhos.E o sigo fazendo agora que já estão todos casados, com o agregado natural que representam os netos.

Tem algum vício?

Fumei durante 40 anos, dos quais eu me arrependo totalmente.(e já levo cinco anos sem fumar).E bebo socialmente: meu aperitivo é uma taçinha de tequila.E tenho a sorte de não cair nas garras do vício, com exceção do tabaco.

Por fim, atuar...

{Para muitos mil seguidores de seus personagens seria impossível imaginar Chespirito fora das telas. Porém o certo é que a vocação pela atuação lhe despertou tarde, e por casualidade. O resto é história conhecida: nos anos 70, Chaves e Chapolin o fez conhecido em toda América Latina e seus programas foram dublados para muitos idiomas. Ainda na última década do século XX, até Homer, o pai dos Simpsons, chegou a incluir o Chapolin entre seus personagens favoritos, e este senhor sabe bastante de televisão}.

Você começou a escrever roteiros para que outros atuassem.As câmeras o estiveram esperando por 20 anos...Imaginava-se ator então?

Não.Eu pensava que durante toda a minha vida não seria outra coisa além de escritor.

Quando o “chamou” a atuação?

Quando tive que tomar o lugar de um ator que não compareceu, nos tempos que os programas se transmitiam ao vivo.

Imaginava que seus personagens alcançariam tal repercussão?

Não, não imaginava que meus personagens chegassem a ter a repercussão que tiveram.Comecei a dar conta disso quando fui contratado para fazer apresentações fora do México, pois em todos os países fui objeto de recepções com multidões e distinções que superavam por completo qualquer prognóstico.

Imaginou, ao criar-los, que o Chaves e o Chapolin se converteriam em referencias universais?

Não podia imaginar que o Chapolin e o Chaves se converteriam no que se converteram.

Pagou algum preço pela fama?

Tenho pagado o preço lógico: um desgaste na intimidade, na liberdade dos movimentos, etc, e a inevitável tarefa que gera sempre um êxito inesperado.

É verdade que o Chapolin Colorado apareceu em Os Simpsons?Como foi?

Homer, o protagonista dos Simpsons, disse que uns dos seus personagens favoritos era o Chapolin, Aí o chamam “Chespirito”, “Mexican Bee Guy” ou coisas semelhantes.

O que acha das dublagens de seus programas em outros idiomas?Como se sentiu ao “escutar-lhe” com outra voz?

Sinto-me orgulhoso de que meus programas foram dublados.Não me lembro em quantos e quais idiomas, porém sim, sei que o primeiro foi o português, no Brasil.Senti admiração ao escutá-lo, pois escolheram vozes incrivelmente parecidas com a minha e de meus companheiros.

Os atores de seus programas se divertiam no estúdio tanto como parece?

Sim, os atores de meus programas se divertiam muitíssimo.

Voltará a reunir esse elenco?

Não.Faleceram Rámon Valdéz, Raúl Padilla y Angelines Fernandes.Agora seguiremos com o “Chaves de 2000”...Porém essa vizinhança não voltará a reunir-se.

Culto e popular

{Alguns dos comentários que despertou a presença de Chespirito no Congresso da Língua Espanhola em Zacatecas, aos que assistiram em 1997 personalidades que associam com mais facilidade ao “culto”, é um exemplo de miopia frente aos artistas populares. “Gabriel García Márquez, é um caso insólito, se pôs de pé em seu lugar na mesa de honra e, dando a espalda ao presidente (Ernesto Zedillo), falou por largo tempo, mais insólito ainda, com o polular e nada intelectual Roberto Gómez Bolaños,autor de Chaves,o Doutor Chapatin,A Chiquinha,e demais personagens de historieta”,observou então, desde de o diário “El Universal”,um jornalista que confundia artes e hierarquias.}

Existe uma arte “culta” contraposto a uma arte “popular”?

Não.A arte popular pode ser tão culta como a que mais.E, o que é menos freqüente, porém igualmente possível, a chamada arte culta pode ser popular.

Classificaram-lhe de pessoa “nada intelectual”.Não lhe parece contraditório?

Não sei se me pode considerar como intelectual.E nem quis que me considerasse assim.A propósito, quando fui convidado ao Congresso da Língua Espanhola em Zacatecas, cujos convidados havia nada menos que três prêmios Nobel (Camilo José Cela, Gabriel García Márquez e Octavio Paz), não faltou, claro, o jornalista que escrevia: Quem pode sair de um congresso sobre a língua espanhola que tenha entre os seus convidados Chespirito?”.Pois bem, eu o contestei (e minha resposta foi publicada no mesmo jornal) eu queria que isso servisse para orientar os jornalistas como o autor do artigo, para que aprendessem a escrever corretamente, evitando erros como...e transcrevi-os o que tinha nesse artigo.(Igualmente, devo reconhecer que o jornalista em questão, Victor Roura, respondeu da maneira mais elegante: “Foi sem querer querendo”, ele disse).

Como lhe parece que o vêem os intelectuais de seu país e América Latina?

Alguns intelectuais do meu país me vêem como “intruso”.Outros, como um “estranho”.Outros como um exemplo (porque os comparam e saem perdendo).Finalmente, alguns poucos me consideram “ameno”.Os demais da América Latina...não sei.

Escreve a mão, a máquina ou no computador?

Tenho escrito a mão, a máquina (mecânica, elétrica e eletrônica) e no computador.Creio que vou me adaptando a informática.

A televisão pode fazer algo mais que entreter?Faz, fez, algo mais que entreter?

A Televisão pode fazer (e faz) muito mias que entreter: irrita, incomoda, assusta, ensina um pouquinho, informa, desinforma, etc, etc, etc...

Sua esposa declarou que agora a Televisa produz “puras porcarias”.Que você opina?

Florinda foi mal interpretada, pois ela  não disse que Televisa produz “puras” porcarias; ela disse que produz “muitas” porcarias.E eu estou de acordo com ela, porém sem aplicar a afirmação a Televisa, mas sim a televisão em geral.

A tela e o poder

Nunca foi candidato a nada, o pediram que fosse?

Uma vez me pediram que fosse candidato a cargos públicos, porém nunca aceitei.

O que acha dos políticos?

Faz muitos anos que disse: A política é tão feia, que se uma palavra tão bela como “mãe” se “acrescenta” política, vira “sogra”!Mas creio que os políticos são um mal necessário.

O espectro político mexicano parece ir se dividindo em terços(o PRI,o conservador PAN, eo centroesquerdista PRD).Parece-lhe um processo positivo?

Não sei.Contudo não conheço partido político (no mundo inteiro) que diga: ”Somos os vilões do filme!”.Portanto  creio que o positivo virá das pessoas, não dos partidos.

A história justifica a atividade guerrilheira nos estados de Chiapas e Guerrero?

A história (a pobrezinha) é inocente.Eu juro! Se a história justificasse alguma guerrilha, o mundo teria que ser guerrilha contra alguém ou contra algo.A história deve servir para evitar os erros; nunca para alimentar desejos de revanche.E por certo, a atividade guerrilheira de Chiapas e Guerrero é muito menor do que se comenta no estrangeiro.

O menino Roberto

Você era um menino fantasioso?

Eu fui um menino fantasioso e muito tímido.

Foi bom estudante?

Fui um estudante regular

Você procede de uma família de classe média e seu pai era um artista reconhecido.Foi difícil preparar um ambiente como a vila do Chaves?

Não foi difícil desenhar um ambiente humilde como a vila do Chaves,porque tive amigos de todas as classes sociais.

Chaves promove a emoção os que o vê.Você se emocionava ao escrever os roteiros e ao encarná-lo?

Sim: me emocionava ao escrever os roteiros e ao encarnar o Chaves.

Crê haver sido de ajuda para os meninos e aqueles que não tem se quer uma vizinhança que os acuda?

Não sei.Mas espero que sim.

Alguns podem dizer que a vizinhança do Chaves oferece uma óptica compassiva ,reivindicativa e enaltecedora dos desamparados e afirmam que seu criador é da “esquerda”.Outros, que Chespirito é da “direita” porque pinta uma vizinhança petrificada, sem mobilidade social, conformista.O que tem a dizer?

A explicação dos términos esquerda e direita como qualificados me faz cada vez mais vaga e confusa.Eu só sei dizer que meus programas não tinham tendência intencionalmente direcionada e que, de qualquer maneira, há coisas que um quis remover e outras quiseram conservar.

Em uma ocasião, Quino disse que Mafalda tinha sido uma a mais entre as dezenas de mil desaparecidos da Argentina.O Chaves nasceu em 1971 com oitos anos de idade.Agora, teria 35 anos.O que seria ele?

Admiro profundamente Quino e sua deliciosa Mafalda.Porém o Chaves era outra classe de menino.E não sei que seria aos 35 anos.Só posso assegurar que, se fosse argentino, talvez não seria uns dos desaparecidos.Porém muito menos seria uma dos “desaparecedores”

Anteninhas de Vinil

{Os capítulos velhos de seus programas televisivos ainda sempre transmitido em muitos paises, entre eles Uruguai (de segunda a sábado no Canal 10).Assim, várias gerações de uruguaios souberam o que é uma “torta de jámon” (sanduíche de presunto), aprenderam outro significado para a palavra “coragem” e memorizaram frases como “foi sem querer querendo”, “me escapuliu”, “não contavam com a minha astúcia”, etc etc.}

Uma coisa que caracteriza cada criança da vila é sua maneira de chorar.Como você chora?

Choro de maneira muito diferente do Chaves.Mais interior que exterior.

Os personagens que você interpreta nunca se enfurecem. É uma decisão intencional?Você é assim fora das telas?

Raramente me enfureço na vida real, porém quando acontece dá medo a mim mesmo.Talvez é esta a razão por qual, subconscientemente, evito fazer o mesmo nos programas.

Quando você tinha 10 anos surgiam os primeiros heróis da história dos que ainda persistem, como Super-Homem e Batmam.Tinha algum favorito?

Jamais tive um favorito do tipo Super-homem ou Batmam.Sempre ma pareceram absurdo os pseudo-heróis que ignoravam o que é o medo.

Sabia que no Uruguai “chavo” (menino) de diz “botija”?

Não sabia.No México se diz “botija” (ou botijón) aos gordos.

Por último, esta incógnita angustia  várias gerações de uruguaios.O que o Doutor Chapatin leva em seu saco?

O Doutor Chapatin tem se negado sempre a me dizer o que leva em seu saquinho