O Dublador Nelson Machado
por Andréa Machado

Bom, eu sou a Andréa Machado, tô aqui com o Nelson Machado, que é dublador e tá dando um curso...(risadas)...de dublagem aqui em Santos. O curso é de 3 meses...

NELSON: Você falou Andréa Machado? Vai parecer coisa paga!! (rindo)
interNeWWWs O curso vai durar 3 meses?
NELSON: 3 meses. Todo sábado em 3 horários. Das 9 às 13h; das 14 às 18h e das 19 às 23h. Aqui na Academia. Marcílio Dias, 27, primeiro andar, Academia Upsport.
interNeWWWs E o telefone daqui?
NELSON: 284.3191.
interNeWWWs Ok. Vamos lá. Nelson, primeiro, comenta alguns trabalhos teus, prá galera que não sabe quem é Nelson Machado.
NELSON: Bom,...bom, vou ter que falar do inevitável Kiko do Chaves!(rindo). Não tem jeito! E já dublei uns 3 ou 4 filmes do Wesley Snipes, prá vídeo dublei quase todos os filmes do Robin Williams, não os que foram prá TV, esses foram dublados no Rio, mas os que estão em locadoras. O "Hook", "Uma babá quase perfeita", ...que mais? (pensando) Tom Hanks no "Um dia a casa cai", "O estranho mundo de Jack" do Tim Burton...
interNeWWWs Beleza! Beleza! E me diz uma coisa, como é o mercado de dublagem? É fácil de entrar?
NELSON: Não, bem complicado de entrar. Primeiro porque é bem complicado de fazer. É... uma coisa que tem que aliar talento à técnica...e tem que ter as duas coisas, senão a coisa não sai, então já é complicado fazer. Depois que você sabe fazer, é um pouco complicado entrar porque ainda existe um bloqueio prá essa entrada. É a historia dos mais antigos tentarem um pouco bloquear...isso tá caindo bem hoje em dia, tá começando a diminuir, mas ainda existe esse bloqueio em alguns lugares, dos antigos impedirem os novos de aparecer, com medo de que seus lugares sejam tirados...mas isso tá caindo, tá sumindo...Graças a Deus!
interNeWWWs Graças à Deus!!... Tem diferença prá homem e prá mulher nesse mercado?
NELSON: Tem. Muita. Porque a gente trabalha...o grosso do trabalho da gente em dublagem são os filmes americanos. A gente também faz filmes italianos, franceses, espanhóis, mas é uma porcentagem tão pequena, que nem conta. O que se trabalha mesmo é com filme americano. E... as produções americanas são todas, com raríssimas exceções, são com aquele bando de homens e umas 3 ou 4 mulheres em cada filme, então o mercado prá mulher é um pouco mais restrito, sim. Tem a necessidade até de aparecer mais gente fazendo, mas o mercado feminino é menor.
interNeWWWs Vamos falar aquele papo sobre a crítica, filmes dublados sofrem certo preconceito em relação aos legendados. Fala sobre isso prá mim.
NELSON: "Certo" preconceito? Isso é de uma bondade...Filmes dublados SEMPRE sofrem preconceito. Existe uma...porque as pessoas que têm...que detém o poder de formar opinião são de um...de uma classe...de um nível cultural diferente da massa que vai ter sua opinião. E essas pessoas insistem em...de uma maneira ou de outra dizer que é inculto ver uma coisa na sua língua. Que é muito mais elegante, que é muito mais culto, que é muito mais chique ver um filme no original...Como se as pessoas do país soubessem inglês, francês, alemão, tcheco, o diabo...né? As pessoas não assistem os filmes, as pessoas lêem os filmes. Ahh...se perde muita coisa,...ahhn...aí usa-se como razão prá isso, assim (imitando)- "não. porque a tradução desvia coisas", como se a legendagem fosse perfeita, fosse uma coisa sem nenhum erro, nunca...
interNeWWWs Imagina, legendagem anda péssima ultimamente...
NELSON: Aí as pessoas ficam assim: mesmo as que não acham, elas acabam, por exemplo, indo à uma locadora, e tem lá as duas versões do filme, a pessoa não pega a versão dublada, porque não quer ser vista pedindo o dublado...a dublagem no Brasil ainda é considerada assim...um...um luxo de analfabeto. É só prá quem não sabe ler. Uma vez, a dona de uma locadora,...eu procurei um filme que eu tinha feito e.. aí.. pedi a versão dublada e ela disse - "Não, não pego versões dubladas aqui." Eu falei :Mas em nenhum caso? -"Não, só filmes infantis e alguns filmes mais melosos, que pessoas de mais idade queiram ver, porque filme dublado é só prá criança e velhinho que não consegue ler."...(pausa)...Aí eu cancelei minha ficha naquela locadora (sorri), porque eu fiquei com raiva...(ri) muita raiva da mulher..e não fui mais alugar filme lá... (já sério)mas ainda tem...tem uma coisa assim e a crítica ajuda muito a fazer isso, porque a crítica.. sempre, sempre, quando alguém se refere à dublagem em algum jornal, em algum comentário em televisão, em qualquer lugar, quando as pessoas se referem à dublagem só conseguem se referir ao ruim. Quando está bom, ninguém sequer comenta: "Olha! Esse táva legal! Assistam! Confiram!" não...não há comentário do bom. E...(nervoso)... Meu Deus por pior que sejamos é impossível que a gente só tenha feito coisas ruins nos últimos 40 anos...não tem como só ter feito coisas ruins....(pausa)....Shogun...Shogun é uma coisa fantástica. Eu tava na Álamo na época em que foi feito Shogun. Édson Ramos e a ...Rosa Maria que dublaram respectivamente o Chamberlain e a ...japonesinha...não lembro o nome dela. É brilhante o trabalho deles, porque...eles têm que falar o português, é um filme de muita emoção.. de muita coisa...fora falar o português, eles têm cenas enormes falando em japonês e tem que ser com a mesma voz, não era uma coisa de deixar no original...e eles falaram em japonês.. são duas pessoas que absolutamente não falam japonês, eles aprenderam a falar aquelas coisas prá fazer o filme. Então...um trabalho grande, um trabalho muito bem feito....tem que ter o tom do japonês...tem que ter as...fora as emoções da cena, da história que tá acontecendo, você tem que pegar os tons, as maneiras que aquela mulher tem, que aquela mulher é japonesa, prá ela era muito fácil fazer isso, a Rosa Maria Pinto não é japonesa...certo!...então, tem trabalhos lindíssimos, os trabalhos que são feitos prá Disney...são belíssimos...Não se comenta, não se fala, pelo contrário, se empurra...Há uma tendência a empurrar o tal do som original, mesmo quando ele não é original...Desenho não tem som original. Por favor! Certo? Desenho não fala sozinho. Ele também foi dublado. Ele só é som em outra língua, não é som original...ele tá dublado. E o Rei Leão, em São Paulo...só prá você ter uma idéia...de como se...se pressiona... essa coisa do...O Rei Leão é um produto infantil, é dirigido à criança, sabe que qualquer adulto assiste aquilo e fica encantado, maravilhado, mas é uma coisa dirigida à criança...nas salas, nos cinemas de São Paulo, ele foi exibido...tinha 12 cópias,..(indignado)...12 cópias na versão em inglês e 3 cópias com a versão em português. Tinha 12 cinemas passando aquele filme O Rei Leão no original e 3 cinemas só passando ele em português.. então...em São Paulo, centro do Brasil (ri irônico). Então existe uma rejeição supostamente cultural, que na verdade acaba sendo o contrário, né? A gente tá é assimilando, assimilando, assimilando outras culturas. É claro que o fato de ter dublado um filme não vai alterar todo o contexto do filme. O filme passado em Nova Iorque, continua passado em Nova Iorque, mesmo falado em português...mas...elimina um pouco esse...esse domínio.. essa força que tem de empurrar as coisas prá gente em outra língua, empurrar, empurrar, empurrar. A crítica, a Mídia em geral, faz muito isso. Os grandes intelectuais do cinema no Brasil fazem uma questão muito grande de dizer: -Se você não assistir no original, você não é uma pessoa culta..(pausa/sério)
interNeWWWs É verdade...
Andréa Legal! Ééé...Desenhos animados ou desenhos de longa-metragem, não sei, eles são feitos com mais cuidado? Leva-se mais tempo? Como é que é isso?
NELSON: Não. Desenhos DA DISNEY (enfatizando) são feitos com mais cuidado e leva-se mais tempo. Os outros desenhos são feitos como todos os trabalhos, porque...aí por questões econômicas, por questões...de preço, de custo e de quanto se cobra,...a dublagem é feita num sistema mais "industrial", né? Uma "linha de montagem", mesmo. Os filmes da Disney são feitos com um pouco mais de cuidado, um pouco mais de tempo, há uma preocupação menor com esse custo. Eles até gastam um pouco mais, mesmo. O resto dos desenhos, em geral, é feito no mesmo prazo que os filmes normais, não tem uma coisa específica, especial pra...um tratamento especial pra um desenho ou...pra um trabalho como esse. (Aponta para a TV, onde há uma imagem congelada do filme "O estranho mundo de Jack" que acabáramos de assistir. Dublado.) Teve um tratamento especial, claro que teve, você assistiu...(pausa)...eu digo "como esse" e aponto...no gravador, é ótimo, né? (Risadas) Como no "Estranho mundo de Jack"... (Risadas)...ééé....teve um ...teve um... tratamento especial, mas um tratamento especial, dentro do que era permitido naquele prazo, né?

Andréa Tá certo! E essa coisa, já falando em desenho, que a gente ouve mais vozes de crianças mesmo, dublando agora os desenhos, os filmes,...criança fazendo a voz de criança, e não mais adulto fingindo uma vozinha de criança. Isso está mesmo aumentando? É mais fácil ou mais difícil encontrar criança ou trabalhar com criança, como é que é?
NELSON: É. Aí...Bom...primeiro, a primeira parte da pergunta, se está mesmo aumentando? Está. Felizmente está. Isso começou com uma exigência da Globo, que depois se estendeu pro resto...e depois deixou de ser só uma exigência, passou...tá começando a ser um hábito, o que facilita...as coisas ficam melhores, né? Tem uma criança lá de 6, 7 anos...você arrumar uma criança de, no máximo 9, pra dublar aquela criança de 6, 7 anos. Em vez de botar uma mulher que faça uma voz de criança. Algumas até ficam perfeitas, mas...se tem uma criança que pode fazer, por quê não? Melhor! Isso...de pouco tempo pra cá, de poucos anos pra cá, vem mudando e vem, vem melhorando. Quando eu entrei em dublagem, eu tive que parar...eu, eu comecei com 12, 13 anos, e, assim, um ano depois eu tive...eu parei, eu fiquei anos sem dublar. Aí eu fui trabalhar na parte técnica das Dubladoras, eu fui aprender outras coisas dentro da área, pra poder ficar lá dentro, porque na época, não se aceitava, adolescente não dublava adolescente...quem dublava adolescente eram jovens de vinte e poucos anos. (Ironizando): "Porque adolescente tem uma voz estranha, então, isso não serve". Ué, mas o cara que está lá é um adolescente! Então ele tem que ter uma voz estranha, mas não...não era. Hoje, adolescente dubla adolescente, criança dubla criança...ééé...as coisas vão mais dentro do que deveria ser, mesmo...dentro das faixas de idade...Agora, se é mais difícil,...sei lá, aí é uma questão pessoal, cada diretor tem...eu gosto, eu curto, porque vira uma bagunça dentro do estúdio, eu gosto disso aí...(risadas)...Então, eu gosto da molecada, quando tem filmes que vêm a molecada, eu gosto, eu me divirto muito!

Andréa Legal! Agora pulando pro oposto. Gente "de idade", você diz que precisa e não tem. É isso?
NELSON: Não tem. (Aproxima-se do gravador): Alô velhinhos...(ri)...apareçam! (risadas)...Porque não tem! Só aparecem novos jovens, não aparecem novos velhos, e....

Andréa Pra começar, pra aprender, né? Treinar, tudo...
NELSON: É, porque não dá pra esperar o sujeito entrar agora com 20 anos e esperá-lo fazer 60 pra usá-lo, não dá...

Andréa Porque geralmente quem é mais velho, fala "Ah, mas eu já tô muito velho pra começar, pra ir aprender" e não é isso. Pode, deve, né?
NELSON: É...precisa! Precisa! Porque dentro de muito pouco tempo, a gente vai acabar tendo só...quando se...quando tiver que dublar as pessoas com mais idade, vai ser sempre uma dublagem falsa, porque vai sempre ser alguém...alguém mais jovem fazendo um tipo, forçando a voz pra fazer. Porque vai acabando...não é só...a idéia mórbida de que os velhos vão morrendo, não é só isso. (Pausa) É isso, também, é um fato! É a verdade! (Sério) Mas, também, não...não querem mais, ou ficam sem condições, assim...tem...o sujeito que dublava o Mister Magoo, certo?

Andréa (meio boba!) Que legal!
NELSON: O que dublava o Mister Magoo, o que dublava...fazia...o Catatau, do Zé Colmeia, é o mesmo. Ele hoje é um velhinho, um senhor, já de bastante idade, mas, ele está...assim, se puser pra dublar, ele dubla muito bem, mas as pernas dele, não deixam ele em pé! (Indignado) Ele não tem condições de ir à Dubladora pra trabalhar! Ele...assim, o talento continua o mesmo, a voz...está mais...seria um ótimo....um velhinho com um baita pique pra dublar, ia dar uma produção ótima, resultados ótimos, uma experiência fantástica, só que ele não pode ir à dubladora! (Pausa) Ele não tem como ir...ele vai...às vezes ele vai, passa por lá, de veeeez em quando, faz uma coisinha, mas ele vai, faz um coisinha, não se agüenta, vai embora. Outros vão tendo outro tipo de coisa, outros vão só se cansando, sabe, não querem mais...são 40 anos fazendo, já querem parar, botar o burro na sombra,...outros morrem mesmo, vários já foram....Então, precisa de gente com mais idade, não adianta só aparecer o pessoal da faixa de 20 a 35, que é o que aparece. E adolescente, também, aparece muito adolescente, mas...nunca...é...de cada cem, aparece um, com um pouco mais de idade, que se dispõe à aprender, a começar alguma coisa, então vamos lá! Começar essa coisa, porque...

Andréa Falando em começar, já fala do Curso, porque o Curso tá rolando em Santos, isso é raro, eu nunca...
NELSON: Bom, se é inédito eu não sei. Tenho ouvido dizer que é. Mas o que você quer que eu diga desse curso? O curso inteiro?

Andréa Não, assim...O que você espera com esse curso, o que você espera do pessoal de Santos, aqui...
NELSON: O que eu espero com esse curso é justamente...o resultado...é assim, né? Eu não tenho muitas surpresas com relação à Santos, primeiro porque... eu te falei, eu não nasci aqui, mas a minha infância e parte da adolescência foi aqui...eu sou meio santista, né? Aquele meio a meio! (Sorri) Ééé...e lá, junto com a gente, trabalhando nos mais variados setores, em teatro, televisão, em dublagem, em rádio, tem uma multidão de santistas, né? Em São Paulo, fazendo esse trabalho, tem diretores de dublagem santistas, tem dubladores...então, o que eu espero aqui, é realmente formar mais gente, porque o mercado está precisando de mais gente e só indo lá e tentando aprender olhando, demora-se muito, e você fica esperando que apareça mais elenco, e demora....então, ver se consigo, se consegue-se formar mais pessoas que possam ir pra lá, ou até que não vão pra lá, mas que se forme um núcleo maior de dublagem em Santos, mas isso...mesmo assim, indo pra lá ou não indo pra lá, há necessidade de mais gente pra fazer o trabalho, mas mais gente habilitada, mais gente que não...claro, não vai, assim, não vai sair daqui, nem de qualquer curso, e supor que vai chegar lá e já ocupar o lugar de alguém que já tá fazendo esse trabalho há 20 anos. É como se alguém saísse da EAD, achando que iria estrelar uma novela da Globo, imediatamente. Ele pode até chegar à isso, mas não no momento em que saiu da EAD. (Pausa) É claro que vai chegar lá, mais ou menos no mesmo esquema de qualquer um que começa, mas...diferente, porque já vai com algum preparo, não vai tomar tempo, porque os empresários...eles se preocupam com isso. "Ah! O sujeito vai fazer o trabalho, mas vai atrasar, vai retardar a entrega do trabalho, isso vai custar mais caro"...então evita-se. Então as pessoas um pouco mais preparadas, elas já...eliminam esse corte inicial. Ela chega, ninguém nunca viu, blá, blá, blá, mas foi, fez, já tem um treino...Ôpa! Então, problema ela já não dá, agora vamos ver o resto, pra que serve, que tipo de voz, pra que papel vou chamar,...e aí é, é...cada diretor tem o seu critério, sua definição...às vezes te chamam pra uma determinada coisa num lugar, e pra outra completamente diferente em outro e você...que loucura, né? Eu...tive...a história dos velhos. Teve um tempo na Álamo, as primeiras vezes que eu trabalhei na Álamo, eu só era chamado pra fazer gente acima de 50 anos! (Risadas) Só que eu...agora eu tenho 43, mas eu tinha 30! (Risadas) Então...é maluco! Na BKS, teve assim, um período...uns 2 anos, que eu só fazia os crioulos! (Risadas)

Andréa Voz de negão!!!
NELSON: É! Branco, nem pensar! "O Nelson é voz de negão". Depois...só...outro período que era só galã, assim "Blá, blá, blá, aquela voz assim" (imitando vozeirão grave). Então cada diretor, cada lugar tem um critério, vê você de uma maneira...

NELSON: ... Essas coisas só vão acontecer depois que você tá lá, estiver já convivendo com a coisa. O importante de se sair de um curso, de um treino básico antes, é que elimina... a primeira... rejeição, que a primeira rejeição é da empresa, que diz assim: "essa pessoa vai ocupar estúdio mais tempo, vai me dar um custo maior... vai me dar uma despesa maior." Essa coisa já vai ser eliminada... porque já tem... a... aquelas horas de treino que teria com 6 meses fazendo meia horinha por dia. Com 3 meses, fazendo as 4 horas... claro que ninguém vai ficar as 4 horas no microfone... senão... tem que botar 20 de uma vez só e fazer só "vozerio", né? (riso) senão não tem jeito! Mas... te dá um número de horas maior, de treino... a gente vai trabalhar com coisas variadas... com mais rapidez... porque quando você vai pra lá, e vai fazer os estágios normais que se faz, aí, olham pra você e botam você lá e dizem assim: "Vem cá! Faz essa secretária aqui". Aí você: "Sr. Robert, éé... telefone pro senhor... " (imitando uma vozinha suave). Aí dizem : "É, tá bom! Ficou legal"... Você vai passar mais 6 ou 7 meses, fazendo secretária em TODOS os lugares, porque é assim: "Ah! Ela fez secretária legal, então vai ficar de secretária... " E é isso que você vai fazer por uns 6 meses! (sorrindo irônico) Pausa... Tem aquela que dá azar de fazer... vai lá um dia e tem que fazer: "Atenção doutor fulano" (com as mãos cobrindo a boca, imitando megafone) ou "Atenção passageiros para o Vôo tal... " e vai passar 6 meses fazendo voz de alto-falante! E fica rotulado! No caso de um curso, você vai acabar fazendo... não tem pressa, não tem entrega de filme, não tem nada... então eu vou testar você, eu vou botar você na enfermeira, sim, na secretária, sim, mas também na... .na maluca que tá lá babando, internada... na mendiga... na... .

Andréa Na bruxa!!! Na negôna!!!

NELSON: (Rindo e concordando) Na bruxa, na... naquela boa crioula, cheia de ginga... vai, vai ter que fazer um pouco de tudo... até pra se achar, né? Pra ver o que você vai fazer melhor, o que não é bem a sua praia... tem coisa que... tem gente que... isso aqui não sai legal, isso aqui sai melhor... tipos, vozes,... desenhos de..., né? Faz um bichinho... (onomatopéias agudas, graves, imitando bichinhos, monstros)(risos).

Andréa (rindo) - Legal!

NELSON: Então, as... a vantagem, de um curso é essa... essas tais "horas de vôo" que fica difícil de você ter no... fazendo... o...

Andréa No estágio normal, né?

NELSON: No estágio comum, porque as empresas não têm tempo de investir em você, elas não têm tempo, nem dinheiro...

NESSE MOMENTO ENTRA NA SALA A ATRIZ VIC MILITELO (QUE TROUXE O CURSO DO NELSON MACHADO PRA SANTOS). ELA TRAZ UM CAFÉZINHO DELICIOSO PRA GENTE, SE SENTA JUNTO E PARTICIPA DO FINAL DA CONVERSA...


VIC: (bem longe do gravador). Uma coisa que eu acho importante ser colocada, é que a gente se propôs a fazer esse pólo aqui, porque o santista tem menos "regionalismo na voz"! A gente encontra muita dificuldade...

Andréa (Passa o gravador pra ela)

VIC: Muita dificuldade com o regionalismo... sotaques difíceis de perder, né? Como... os baianos, os gaúchos, os cariocas... então, os santistas têm essa facilidade de não ter o regionalismo tão... enraizado. Fica mais fácil de trabalhar.

NELSON: (longe do gravador). Tem um abrandamento, né? O pessoal de Santos tem uma postura... (pegando de volta o gravador) dá uma coisa... não sei se por causa da linha do mar, mas tem uma... uma... um "quêzinho" do carioca,... mas tem esse convívio com o "italiano-paulistano" que faz uma... uma misturinha que nivela as duas coisas. É bem aceito aqui e lá, né? (rindo) É bem aceito dos dois lados.

VIC: Tem a coisa nacional, que é mais fácil... pra fazer algo internacional, entende? E depois, pelo amor de Deus, você pega o Stallone... já pensou se for um baiano dublando o Stallone? Já é difícil agüentar o Stallone... (risadas) Aí com uma voz de baiano...

NELSON: (Imitando o Silvester Stallone, carregando no sotaque baiano) "Eu sou o seu piorrr pésadêlo". (Mais risadas)."Quérída, eu venci!" lembra? No fim do "Rocky"? "Esse prêmio eu dédíco à você!" (risos)... É complicado isso, porque... eu acho que é um pouco estranho isso, mas é verdade, as pessoas não aceitam, mas... porque... Meu Deus do céu! Por quê que... brasileiro é só São Paulo e Rio?... né?

Andréa Ééé... eu adoro sotaques, qualquer sotaque!

NELSON: A gente inventou isso... a gente inventou, não, a Globo inventou isso e pronto... e a gente acaba obrigando a Bahia e o Rio Grande do Sul a engolir a gente! (Pausa) O carioca se queixa muito desse... "italianismo" paulistano, né? Essa coisa meio assim...

Andréa Essa coisa "bela" (imitando italiano).

NELSON: É. E eles até recusam... eles ficam meio assim... a Globo principalmente, né? Eu até fiz de propósito esse filme... (referindo-se ao filme que a gente havia assistido, dublado por ele, com o ator comediante italiano "Roberto Benigni")... me deu dois grandes prazeres... um de fazer, que eu achei muito legal o filme, achei muito legal o ator... e outra que eu falei... eu liguei e falei: "Ó, vai tudo em italiano nesse filme, viu?" Porque não tem jeito, como é que vai dublar um cara desse, sem fazer essa coisa de "ó, ma como"... não tem nada que substitua aquele "porca miséria!" Não tem! (sorrindo, indignado) Você TEM que falar "Porca miséria!" (com sotaque).

Andréa Que delícia!

VIC: E pra falar bem o "porca miséria" tem que ser paulista, né?

NELSON: Não tem ninguém como um bom paulista pra falar bem um "porca miséria" com propriedade! Mas por outro lado eu acho que filmes, assim... aquelas coisas nova-iorquinas... gangues, eles fazem melhor do que nós. (referindo-se aos cariocas) Eu acho! Aquela coisa... eles tem, já... uma linguagem, uma maneira de fazer as coisas, uma "musiquinha" que deixa a coisa mais fluente. Agora, você pega... filmes italianos não podem ser dublados no Rio de Janeiro. E filmes que tenham italianos... olha eu vi um filme, "O Poderoso Chefão" dublado no Rio de Janeiro... é terrível! Aquele... só deles falarem "Dom Cohhleone"(falando com sotaque bem carioca) não dá! TEM que ser "Corleone", senão não dá. TEM que ser. É "tutti" ítalo-americano lá.

Andréa É verdade...

NELSON: Então, tem que entender também, essas coisas. O quê o filme é, o que ele tá tentando mostrar, passar... não adianta só... "Ah, aqui se fala assim" Não, não é "aqui se fala assim", não. (Pausa) Houve um tempo em que se faziam adaptações estranhas, né? Você ouvia personagens falando de Pelé, falando de Dom Pedro, mas como? Sabe? Aquelas adaptações sem sentido, onde o cara nasceu numa fazenda do Texas, aí daqui a pouco ele menciona o Pelé... você pára e pensa, "não faz sentido!" Tem que tomar cuidado com as coisas que adapta. Tem que ter cuidado com essa coisa do tipo de personagem, do tipo de história... o que está acontecendo ali... tem coisa que eu acho que fica melhor com um carioca fazendo... com... aquela ginga... aquela ginga do carioca, mas tem coisa que tem que ser o paulistano, agora, essa coisa que a gente estava falando, é verdade. Santos mistura um pouco as duas coisas. Talvez seja uma coisa assim... dá pra jogar nas 11 (rindo) dá pra pegar... dá pra agradar a gregos e troianos!

Andréa É... é verdade! Que bom!!!

NELSON: Pergunte mais... senão eu vou ficar falando aqui, até...

Andréa É, não sei! Acabaram as minhas perguntas, mas... o papo tá muito bom..

NELSON: É isso aí!

Andréa Valeu! Valeu muito!

VIC: Essa coisa, desse movimento que eu tô tentando trazer pra cá...

Andréa (correndo com o gravador até a Vic) É, fala um pouco, fala aqui! (O Nelson, nessa hora, sai pra acender um cigarro).

VIC: Esse movimento cultural que eu tô me propondo a fazer aqui, junto à Cadeia Velha, junto ao "Galatiri" (um bar/restaurante na avenida da praia), e ao Teatro Municipal, simultaneamente, com cursos e espetáculos diversificados, tem a ver com essa coisa de resgatar pro santista a credibilidade própria. Não que ele não tenha fora, ele não tem aqui! Ele tem a necessidade de buscar reconhecimento fora. Eu quero, nesse pouco tempo em que eu ficar aqui, fazer com que vocês acreditem em vocês mesmos! E que façam o sucesso acontecer aqui! Não esperar sair daqui pra fazer sucesso!... .*E CONTINUA!*