| Documentário "El Niño Que Somos" - por Bruno CH |
Em 2000, a Televisa juntamente com a Clío do México lançou um VHS de um documentário sobre a vida e obra de Chespirito, com o título "El Niño Que Somos", que no ano passado (2005) foi re-lançado em DVD pela Xenon Pictures. O documentário traz cenas e fotos incríveis sobre a vida do Roberto e as séries CH. Nesta matéria especial, falarei sobre algumas coisas que são ditas no doc. além de mostrar várias imagens das raridades que contém, indispensável para qualquer fã de CH.
Narração:
Desde pequeno, Roberto sonhava em ser jogador de futebol ou engenheiro. Ser ator lhe parecia ridículo, mas com o passar dos anos foi descobrindo sua verdadeira vocação. Primeiro como escritor e depois como ator, deu vida à vários personagens, inclusive a dois dos mais populares da televisão do México: o Chaves e o Chapolin Colorado.

Roberto nasceu no Distrito Federal em 21 de fevereiro de 1929 em uma família de classe média. Seu pai Francisco Gomez Linares foi pintor e desenhista, sua mãe Elza Bolaños Cacho, também pintava e escrevia poemas. Gomez morreu cedo quando Roberto tinha apenas 6 anos, e a partir de então Dona Elza foi mãe e pai para os seus três filhos: Francisco, o mais velho, Roberto e Horácio. Elza havia estudado em Nova Iorque quando jovem e falava inglês perfeitamente, podendo trabalhar como secretária utilizando o idioma e ganhando bons salários.

Chespirito - Meu pai tinha sido um autêntico boêmio, havia gasto tudo que ganhou e o único que deixou foram dívidas tendo que tomar empréstimos de alguns lugares mas nos mandando à bons colégios, se sacrificando.
A morte de Francisco Gomez coincidiu com a crise econômica dos anos 30. Sua viúva se viu obrigada a vender a preço baixo a casa onde viviam, mas mulher empreendedora, começou a investir na construção e venda de casas. Mesmo com a ausência do pai, Roberto teve uma infância feliz com seus amigos pobres, que serviriam de inspiração para futuros personages e histórias.
[...]
Na sua família todos eram esportistas. Jogavam basquete e baseball, mas o esporte que sempre encantou Roberto foi o futebol. Sua posição era de extremo-esquerdo. Participava dos jogos pré-liminares das forças infantis e juvenis da equipe mártir, mas no entanto, teve que deixar de ser futebolista profissional por causa do seu pouco peso: 48 kg. Mas Roberto não se amargurou por não poder realizar este sonho, pois quando a má sorte lhe fechava uma porta o seu gênio lhe abria outra.

Chespirito - O meu tio havia me prometido um violão, mas antes em uma madeira, coloquei tarrachas, ligas, marquei os trastes para aprender as posições, os câmbios, de maneira que quando ele me deu o violão uns 5 ou 6 meses depois eu já podia fazer os câmbios de Lá Maior e Menor e de Dó Maior. Cheguei a fazer uma serenata a alguma noiva ou alguma pretendente sozinho com meu violão.
A capacidade de Roberto em aprender por si mesmo lhe permitiu não só a tocar violão mas no compasso do tempo, de compor canções. Algumas de suas composições alcançaram êxito nas rádios e atualmente ainda recebe pelos direitos autorais das melodias que escreveu. Mas em sua juventude, o que Roberto desejava era se divertir. Com um conjunto de amigos formaram um grupo musical que durante 3 anos se dedicaram à realizar festas.
[...]
Quando Roberto cumpria com seu serviço militar, a família voltou a ter problemas econômicos. Dona Elza perdeu as 6 casas que alugava e a situação foi ficando cada vez mais difícil.
Chespirito - Tomávamos banho de balde e não havia água quente. A luz era gato com a rede, dizemos isso com toda sinceridade do mundo pois depois fizemos a conta. E era eu muito feliz. Eu não me dava conta de como éramos pobres.
Mais uma vez, Dona Elza com muito esforço e empenho, conseguiu recuperar parte do que foi perdido e pôde adquirir um apartamento para os seus filhos. Desta vez com a ajuda de Francisco, o mais velho, que já havia começado a trabalhar. Roberto concluiu o ensino médio e ingressou na faculdade de engenharia da Universidade Nacional. Em pouco tempo, começou a realizar alguns trabalhos eventuais, como de diretor técnico e de levantamentos topográficos, que lhe permitia cobrir parte de seus gastos pessoais.

Chespirito - Eu pensava desde cedo em ser engenheiro ou futebolista. Estudei até o segundo ano de engenharia mas o meu conceito do que era ser engenheiro era um pouco romântico. Viví um tempo com um tio que era engenheiro em Guadalajara e ele tinha um taiêr maravilhoso e eu o ajudei a construir uma locomotiva à vapor, em miniatura. Eu pensei que a engenharia seria isso, desenhar brinquedos, mecanismos engenhosos.
Um tanto decepcionado com a engenharia e ainda sem saber o que realmente desejava ser na vida, Roberto se descuidou um pouco dos estudos na faculdade e passava a maior parte do tempo na cantina da universidade contando piadas, tocando violão e às vezes jogando gude. Um dia, enquanto trabalhava em uma fábrica de produtos de aço, Roberto viu no jornal que se solicitava um aprendiz de produtor de televisão e um aprendiz de escritor de televisão, e foi procurar trabalho como escritor, na agência de publicidade "Darcy & Nobles".
Chespirito - Como prova de escritor, levei uns artigos que havia escrito em um jornalzinho e acharam bom porque tinham humor e então me deram trabalho.
Roberto ficou fascinado com o trabalho na agência desde o primeiro momento. Os patrões e os clientes apreciaram de imediato o trabalho de Roberto. Escrevia frases, anúncios espetaculares, folhetos e compunha jingles para diferentes produtos. Desde o primeiro contato com teatro, começou à rodar em sua cabeça a idéia de que escrever era o que verdadeiramente gostaría de fazer na vida e o trabalho na agência Darcy, lhe ajudou a sair das dúvidas.
Chespirito - Eu dizia que gostaria de fazer algo assim, escrever obras de teatro. Passou o tempo e já na agência Darcy, comecei a fazer isso em pequenos programas, sketchs, roteiros cômicos, sempre me especializando na parte humorística ainda que não totalmente, e fui forjando a idéia de que eu sería isso.
Desejando ser escritor, Roberto começou a ler por conta própria livros sobre ortografia e redação, ansioso por conhecer e dominar o melhor possível a língua. Aos 22 anos, Roberto conheceu a Gracielle, já eram quse noivos quando se deu conta de que era quase 8 anos mais velho do que ela. No início sentiu um pouco de remorso mas o amor falou mais alto. A relação continuou por mais de 4 anos e em 1956, Roberto finalmente se casou com quem foi sua primeira esposa e com a qual procriou 6 filhos, cinco mulheres e um homem. Depois de se casar, Roberto continuava trabalhando com êxito na agência de publicidade Darcy.

Chespirito - Na própria agência, me disseram um dia se com o meu grande senso de humor, não desejava escrever roteiros cômicos para o programa de rádio "Biruta y Capulina" e eu perguntei: quem são essas senhoras? - Não, não são senhoras, são senhores! - Mas como, Biruta y Capulina...
Entre animado e sético, Roberto foi ver ao programa Biruta y Capulina na XEW, a estação de rádio mais escutada na média dos anos 50 e resolveu escrever um sketch. O sketch foi um récorde de público para o humor e o primeiro sucesso de Roberto como humorista. Biruta e Capulina lhe solicitaram outros roteiros que também foram bem recebidos pelo auditório de maneira que logo Roberto virou escritor de cabeceira da popular dupla.
Chespirito - Um dia me disseram que estavam gostando e depois disseram que estava em 1º lugar na rede de rádio e então me disseram se eu não gostaria de fazer o mesmo na televisão. Eu disse sim mas não a mesma coisa, televisão são para os olhos e rádio para os ouvidos.
Em 1958, Biruta y Capulina com a participação do escritor Roberto Gomez Bolaños, começaram a trabalhar no programa "Cômicos y Canciones" que era transmitido pelo Canal 2 do Telesistema Mexicano e logo passou a ser o programa mais popular do país. Em pouco tempo, Bolaños virou o mais solicitado e o mais bem pago dos escritores de televisão. Ao mesmo tempo, começou a escrever diálogos para os filmes de cinema.

Chespirito - A primeira vez que filmaram um filme escrito por mim, o diretor era Dom Agustín Pen, mas na caneta nunca havia pegado. E se encantou o diálogo e me disse que eu era um pequeno Sheaskpere. Isso era um elogio muito grande e então começou a me chamar de Sheaskperito, o diminutivo de Sheaskpere e o pessoal dizia o mesmo, onde está o Sheaksperito, onde ele foi...
Companheiros de trabalho, amigos, técnicos, começaram a chamá-lo de Sheaskperito e ao mesmo tempo se encarregaram de castelianizar o vocábulo transformando-o em Chespirito. Roberto gostou tanto do pseudônimo que o transformou em seu nome artístico e com o tempo passou a ser tão conhecido como Chespirito do que pelo seu nome original. Em meio a semelhante êxito, Chespirito pensou que durante todo o resto da sua vida se dedicaría unicamente a escrever, mas um acidente mudou de novo suas expectativas. Um dia, um ator não compareceu ao estúdio de televisão e os produtores responsáveis por colocar o programa no ar convenceram Chespirito a atuar. Roberto repassou o texto e antes da cena sair colocou pequenas colas como fazia na escola na hora dos exames, para lembrar das falas de seus personagens.
Gaspar Henaine (Capulina) - Tinham papéis pequenos que eu dizia, usa eles Roberto! Eu dizia "Chep", usa os papéis Chep. E ele dizia "não, o que vão dizer de mim" e então ele pegava e largava e pegava de novo e largava e assim era feito.

Quando o programa acabou, seus companheiros diziam que ele tinha atuado muito bem e o animaram a seguir atuando. E então desde esse momento começou a participar de pequenos roteiros que fazia.
Chespirito - E fiz toda classe de papel, alguns espantosos outros não. No cinema, na televisão e comecei a me destinguir pela agilidade por causa da prática de esportes que eu havia adquirido: futebol, boxe, natação, atletismo, me ajudavam a fazer muitas coisas, a fazer boas quedas, para brincar, para simular as pancadas porque eu sabia lutar, sabia como dar um golpe, como pará-lo, como simular que recebia.
Roberto começou a atuar já muito grande, aos 29 anos e sem nenhum estudo prévio. Leu alguns livros e aprendeu conceitos básicos sobre atuação mas se fez ator de forma autodidata.
